quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Com Deriva, nos despediremos do Apenas um Jogo

Apenas um Jogo foi um programação intensa de larp no Sesc Itaquera no ano de 2017. Uma vez por mês, sempre no último domingo, a unidade do Sesc situada na Zona Leste de São Paulo recebeu os mais diferentes larps, brasileiros e de outras partes do mundo. Além disso, recebemos também autores para fazer seus próprios jogos - muitas vezes pela primeira vez.

Em dezembro, encerramos nossa programação anual no domingo dia 17 - início das festividades da Saturnália Romana e data significativa para nossa história com o larp - com o Larp Deriva, de Luiz Prado.

Tive a oportunidade de jogá-lo em fevereiro, durante a programação Território Larp no Sesc Ipiranga (onde joguei também o larp Chuva Ácida, duas semanas depois). Deriva é um larp "físico", na tradição de outros jogos do autor como monstros e Último Dia em Antares (este, desenvolvido durante uma residência artística no Sesc Itaquera em 2016), mas não é necessariamente um larp "mudo". Seguindo outra "tradição do autor" (comparemos Café Amargo, Letícia Freire e Andarilho... por exemplo), Deriva experimenta também, de maneira radical, na forma. Não importa quantas pessoas estejam jogando o larp juntas e ocupem o espaço ao mesmo tempo: cada personagem está sempre sozinho, definhando solitário na selva como o protagonista do conto que inspira o larp, À Deriva, de Horácio Quiroga. (O próprio Luiz Prado discorreu recentemente sobre esta escolha de design em um post no facebook).

Estar tragicamente sozinho e ao mesmo tempo dividir espaço com os outros jogadores não é a única característica que chama atenção em Deriva, é claro - mas os demais traços de personalidade desse larp eu deixarei para conhecermos pessoalmente e na pele no próximo dia 17.


DEZ/ Deriva 
dia 17 de dezembro, domingo - 14h00 / Sala de Convenções Grande

Deriva é um larp baseado no conto À Deriva, do escritor uruguaio Horacio Quiroga. Os jogadores vivem uma luta pela sobrevivência na selva, enquanto agonizam sob os efeitos de um veneno letal. Com ênfase no trabalho corporal e no uso da imaginação, Deriva faz parte de um grupo de larps que buscam explorar as potencialidades do corpo em jogo, como "monstros" e "Último dia em Antares". Através da imaginação, os jogadores criam seu entorno e moldam seus corpos, deslocando-se por espaços ficcionais que se cruzam. A procura é pela imersão surgida desses corpos modificados pelas sugestões criativas dos participantes. Deriva é o primeiro jogo de uma série batizada como "Larps de Amor, de Loucura e de Morte" - em referência à coleção de contos de Quiroga.

A participação é gratuita e não é preciso fazer inscrição antecipada, basta comparecer no horário. É recomendado que os participantes venham com trajes confortáveis. Durante o larp, poderá haver trabalho corporal intenso, com movimentos como engatinhar, rastejar e rolar no chão.

link: evento no site do Sesc

link: evento no facebook

Deriva encerra a programação do ano Apenas um Jogo, que trouxe um larp por mês, todo último domingo do mês para o Sesc Itaquera. Excepcionalmente em dezembro, o Apenas um Jogo ocorrerá no dia 17 de dezembro.


Luiz Prado realiza suas pesquisas individualmente e junto do grupo Boi Voador e da ong Confraria das Ideias. Participa do NpLarp - Núcleo de Pesquisa em Live Action Roleplay. É criador e organizador do FERVO - Frente de Experimentação em Representação, Vivência e Ocupação. Reside em São Paulo, SP.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um larp para entender a Palestina

Em março de 2012, a notícia de que um Ministro Norueguês falou sobre o potencial sócio-interacionista do RPG correu as redes sociais. "Larps podem mudar o mundo, declarou recentemente Heikki Holmås, o novo ministro norueguês do Desenvolvimento Internacional". A entrevista repercutiu anos a fio, sempre como se fosse uma novidade (como é de praxe na internet).

Na entrevista, além de sua trajetória pessoal como jogador, experiências significativas que ele viveu em larps ele fala também de "um projeto norueguês de larp na Palestina, que será realizado ainda este ano, do qual ele não conhecia todos os detalhes". O projeto em questão, entre a norueguesa Fantasiforbundet e O Fórum de Paz e Liberdade da Juventude, resultou no larp Até que a Morte nos Separe, também em 2012, promovendo interação entre as culturas nórdica e palestina.

O intercâmbio que começou naquele ano deu vida a uma sólida comunidade de larp no país, tendo resultado em muitos outros projetos: um grupo local organizado, uma publicação nacional (O Nascimento do Larp no Mundo Árabe) e um grande projeto entre a Finlândia e a Palestina, o larp Estado de Sítio, que ocorreu na Finlândia em 2013, fartamente documentado e com investimento robusto, apenas para citar alguns exemplos.

No larp Estado de Sítio os personagens vivem em uma Finlândia ocupada militarmente, em correspondência á ocupação israelense que acontece na Palestina. Foto:Tuomas Puikkosen
Longe dos ricos países nórdicos, no entanto, a cena do larp Palestino se desenvolve com vigor - mesmo sem tantos recursos. Interessado pela produção naquele país - e as similaridades que poderiam ter com a nossa - o pesquisador Tadeu Rodrigues Iuama entrou em contato com os produtores de lá e selecionou o jogo Então, você acha que consegue dançar? que se passa na Palestina, em 2002, mas que segundo o pesquisador pode ser entendido como um jogo "correspondente" ao seu irmão rico da Finlândia. Mohamad Rabah, por exemplo, é um dos autores de ambos os jogos.

Segundo os autores Riad Mustafa, Ureib Samad, Mohamad Rabah, é um Larp educacional para não-palestinos sobre a situação política interna palestina. Com seu larpscript traduzido pelo Tadeu Rodrigues, Então, você acha que consegue dançar? foi realizado pela primeira vez no Brasil por ele  no Sesc Sorocaba e é o próximo larp, no Sesc Itaquera, da Programação Apenas um Jogo - que traz todo mês um larp diferente, sempre no último domingo do mês.


NOV/ Então, você acha que consegue dançar? 
dia 26 de novembro, domingo - 14h00 / Sala de Convenções 

Os jogadores representarão personagens com diferentes pontos de vista políticos, que divergem sobre qual seria a solução para o fim da ocupação e sobre seus sonhos para o Estado Palestino.

Os eventos do jogo ocorrem em 2002, durante a invasão do exército israelense a Ramallah. Na ocasião, muitas pessoas, presas aleatoriamente, eram colocadas em um campo de detenção provisório na região. Depois de algum tempo, eram soltas ou transferidas para uma prisão permanente.

Por coincidência, um grupo de pessoas. que se conheceu 8 anos antes (1994), quando estudavam na Universidade de Birzeit, são presos durante esse período às 2:00 da manhã. E agora eles estão neste campo de prisioneiros com as mãos amarradas e os olhos cobertos. O jogo vai levar suas memórias de volta ao seus argumentos políticos durante 1993 (O acordo de paz de Oslo), e o que aconteceu com esses argumentos e visões em 2002.

A partir de 16 anos.

link: evento no site do Sesc
link: evento no facebook

Então, você acha que consegue dançar? é o penúltimo larp da programação Apenas um Jogo, que traz um larp por mês, todo último domingo do mês para o Sesc Itaquera.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

ILHA DAS BRUXAS: Sobre todas as vezes que queimaram uma pilha de pessoas

A edição do Apenas um Jogo de outubro foi o larp Ilha das Bruxas - adaptação na qual trabalhei com André Sarturi do larp Terra dos Pecados e da Peça Bruxas de Salém (de Arthur Miller), temas desenvolvidos na sua pesquisa de mestrado em 2011 e 2012.

O desafio foi condensar em apenas algumas horas a experiência dividida primeiro em 10 encontros, depois em 5, realizada durante a pesquisa de mestrado dele na UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarna, em Florianópolis. Somou-se a isso uma curiosidade maior pela "caça às bruxas" em relação ao larp de referência - e na investigação de mecanismos para promover a epidemia de acusações como uma meta de design.

A partir do cruzamento de nossas experiências, minha e do Sarturi, criamos um jogo novo - experimentado pela primeira vez no dia 28 de outubro (às vésperas do Dia das Bruxas) por nove participantes. Sobre a experiência, um dos jogadores escreveu o relato abaixo, intitulado Sobre todas as vezes que queimaram uma pilha de pessoas.

Guest Post - Chris Alexsander Martins 


Enquanto Maria, a lavadeira cujos braços atrofiados esfregavam toda a roupa suja da Ilha das Bruxas, pude ouvir o som da fogueira enquanto esperava atrás das grades.

Eu olhava para o Pastor Antônio no fundo dos olhos. Era recíproco. Sua boca quase não mexia mesmo dizendo todas as palavras da Bíblia: ela só deixava um rastro constante de dureza, de firmeza devastadora. Mesmo sentada ao fundo do Tribunal do Santo Ofício, eu via a determinação cega do Pastor emanando raiva, enquanto o Inquisitor ao seu lado ditava as regras do espaço (acho que lhe faltava roupas para ficar grande).

A ruiva, toquei a mão dela. Sabia que ela seria a primeira, desde quando tive o sonho com todos os homens gritando nos seus ouvidos BRUXA. Mas a achei corajosa, mesmo sabendo que estava mentindo sobre ser bruxa: era bastante seca com o Pastor, quando abria a boca era para falar algo importante. Assumiu e levou mais dois, os caçadores que mais latiam que mordiam, gritantes desnecessários dum ambiente supostamente harmônico, e a devota.

Ela se foi. De cabelos pretos, era impossível que ela fosse morta. Mas nem mesmo as palavras de Deus a salvaram, mesmo sendo tão crente em seu ato. Eu sei disso, conheço a velha desde nova. Crescemos quase juntas, a única velha que fala coisa com coisa naquele lugar. Foi levada.


Aos prantos eu caminhei atrás pedindo a Deus que nos protegesse de todo o mal. Subiu no palanque junto de outro a ser enforcado. Tinha pouca gente para ver ela morrer, poucos se importavam talvez, mesmo sendo a matriarca: é triste perceber ao fim da vida que você só não é importante, para ninguém. Olhei no fundo de seus olhos, mais fundo ainda que o próprio Pastor, e pude ver a confiança em Deus, a devoção, censuradores das lágrimas antes do último suspiro. Apenas acabou. Foi tão rápido, mas acabou. Nem para o tempo sua vida teve importância.

Subi na cadeira e contei minha história. Talvez ela também fosse a daquelas outras que estavam comigo na mesma cela, esperando a brisa fria ser deixada pelas chamas da fogueira. Ela queimava os corpos de várias outras mulheres que um dia gritaram de ódio. Mas estava ali assim como a ruiva: exterminei a origem de toda injustiça em nosso terreno, matei a filha do infeliz Pastor Antônio. E é gratificante recitar isso aos ouvidos de Deus.

Fui pra casa. Queria ter lavado minhas mãos na água fria.

Esse larp me fez pensar na possibilidade de conversar e sentir toda essa ofensiva aos direitos humanos naturalizada pelo mundo. Falar sobre a fogueira é falar sobre nossa história e não dá para negar o que ela faz com nossos corpos. Os meninos avançando, as meninas separadas em bruxa, em algum lugar sinto que até mesmo a subversão pelas meninas do outro jogo são marcas de nosso tempo. Num larp aparecem as coisas da vida de cada um, compartilhadas.

Achei um texto legal esses dias que fala sobre normalidade e diferença. A primeira apenas existe, é o que está no meio de todos, quase como o que estrutura, tudo que é normal não dá para ser exatamente designado, é algo maior. A diferença é exatamente o que não é considerado normal, por isso inclusive é apontada, já que ainda por cima existem muitos diferentes dentro da diferença. Acho que esse larp tem potência para isso, ver essa violência injusta posta nos corpos e nos discursos do Tribunal. Não sei se faltam heróis, não sei se faltam vilões, mas não duvido que o massacre de Salém deve ter sido decidido numa reunião daquelas.

Muito obrigado pelo jogo, não sou bom com o nome de todas as pessoas, mas agradecimento especial ao Luiz Falcão e ao André Sarturi, organizadores e provocadores do jogo. Espero por mais sessões desse ou de outros jogos.




Mais sobre ilha das bruxas:
- De volta à Ilha das Bruxas
- Um pouco mais sobre o larp Ilha das Bruxas (breve)

Mais sobre Apenas um Jogo:
- Apenas um Jogo
- Programação do primeiro semestre (2017)
- Apenas um Jogo de Agosto
- Apenas um Jogo de Setembro

Mais sobre André Sarturi:
- Visita à unicamp


terça-feira, 10 de outubro de 2017

De volta à Ilha das Bruxas

Nos anos de 2011 e 2012, André Sarturi desenvolveu sua pesquisa de mestrado com larp no Programa de Pós Graduação em Teatro, na UDESC - Universidade do Estado de Santa Catariana, orientado pela Professora Doutora Beatriz Ângela Vieira Cabral.

Quase que por um lapso, só fui ter contato com seu trabalho no ano seguinte, após sua publicação. Os trabalhos do NpLarp e do Boi Voador começaram também 2011 - e na época, perdemos a oportunidade de "trocar figurinhas". A leitura de sua dissertação me impressionou pela consistência do trabalho desenvolvido teórica e praticamente - e também pela farta documentação anexa. A interface com o Drama Processo foi novidade para mim. Mas se o referencial teórico do teatro foi uma grata surpresa, senti a falta do referencial específico sobre o larp. Àquele tempo, Sarturi tinha tido muito pouco contato com a produção internacional do larp, seja prática ou mesmo teórica, e nenhum com nossas pesquisas aqui em São Paulo.

No trabalho intitulado "Quando os dados (não) rolam: Jogo, teatralidade e performatividade na interação entre o ROLEPLAYING GAME e o Process Drama" Sarturi usou o texto Bruxas de Salém (The Crucible) do dramaturgo norte-americano Arthur Miller como ponto de partida para criar uma analogia à própria ilha de Santa Catarina nos tempos presentes. Comunidades religiosas, organizações autônomas femininas e especulação imobiliária foram alguns dos temas que pegaram impulso no texto de 1953.

A trajetória dele com o Larp começa em Curitiba em 1994, por meio dos jogos de RPG. Após tomar contato com o larp no Encontro Internacional de RPG daquele ano, em Curitiba, com a presença de Mark Hein*Hagen, Sarturi passou a criar dentro da linguagem, rapidamente abandonando o universo dos jogos de RPG e enveredando por suas próprias criações, muitas delas com inspiração literária. Por anos, Sarturi e o grupo que fazia parte, Enigma, exploraram a linguagem em ambientes públicos e abertos, assim como fazem a Confraria das Ideias e o Boi Voador em São Paulo - mas as investigações em Curitiba foram em outro sentido. Ali era comum alguns larps durarem dias e não horas. Infelizmente, não houve qualquer tipo de documentação (ainda) dessa história - e todo referencial teórico específico do larp que encontramos na dissertação vai pouco além dos livros de RPG da série Vampiro: A Máscara, publicados entre 1994 e 2002.

Agora, 5 anos após a conclusão da pesquisa, revisitaremos juntos a Ilha das Bruxas, cruzando nossas experiências e perspectivas. Nesta nova adaptação, somaremos à investigação original o acúmulo do próprio Apenas um Jogo, em uma montagem para apenas algumas horas, fazendo uso também das técnicas e composições do nosso atual repertório, mas sempre buscando diálogo com os materiais de referência - seja o fato histórico de 1692 em Salém, a peça teatral de 1953, o filme de 1996, o larp-processo de 2012 e, sempre, inclusive honrando o sentido original de The Crucible, os tempos em que vivemos.


OUT/ Ilha das Bruxas 
dia 29 de outubro, domingo - 14h00 / Sala de Convenções Grande

Baseado na peça "As Bruxas de Salém", de Arthur Miller, o larp criado por André Sarturi se passava em uma ilha, análoga a ilha de Florianópolis, nos tempos atuais. Temas da peça como a perseguição, a disputa por terras, a religiosidade e outros eram retrabalhados à luz da realidade brasileira.

Sarturi desenvolveu o tema em seu mestrado, concluído em 2012. Na ocasião, produziu uma interface entre o larp e o Drama Processo, resultando em um larp dividido em episódios, com o recursos cênicos.

Nessa nova edição, Sarturi se junta ao produtor e educador Luiz Falcão, refletindo as experiências vividas durante o desenvolvimento do mestrado e as influências da cena paulistana a internacional nos aspectos contemporâneos da linguagem. Os episódios se transformam em capítulos e as experiências mais significativas são transformadas em mecânicas de jogo.

A nova edição de “A Ilha das Bruxas” acontece em uma única tarde, dentro da programação Apenas um Jogo.

A partir de 16 anos.

link: evento no site do Sesc
link: evento no facebook

André Sarturi foi produtor de larps nos anos 1990 e 2000 em Curitiba, onde organizou mais de 20 larps no período para o grupo Enigma. Bacharel em filosofia, é mestre em Artes Cênicas pela UDESC (Florianópolis) com o tema "Jogo e Teatralidade na Interação com o Roleplaying (larp) e o Process Drama", tendo desenvolvido ampla pesquisa prática baseada em larp.

Hoje, é professor de pós graduação no IPGEX - Instituto de Pós Graduação, e doutorando pela Unicamp, onde pesquisa estratégias de convite a participação do público em dança, teatro e performance.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ciência da Morte, um mod de "Os Anatomistas de Babel"

Em março de 2015, o game designer Ygor Speranza publicou sem muito alarde um jogo com ares cômicos no grupo Indie RPG no facebook. Com certa inspiração em As Extraordinárias Aventuras do Barão de Munchausen, Os Anatomistas de Babel logo foi parar no larpbrasil.blogspot.com e depois no Cardápio que organizei primeiro para o Sesc Bauru e então para circular em toda a parte.

Em Agosto de 2016, eu levei Os Anatomistas de Babel para FERVO na Funbox Ludolocadora, para jogá-lo pela primeira vez. A pedido do Ygor Speranza, escrevi um relato (ou seria uma análise?) sobre a experiência que pode ser lido no blog do FERVO.

Anatomistas de Babel, de Ygor Speranza, durante o FERVO em São Paulo, na FUNBOX. Foto de Jaime Daniel Rodríguez Cancela

Um dos jogadores, o Guilherme Leandro de Cicco, criador do Boardgame The farm Heist, estava jogando larp pela primeira vez - e as mecânicas de Anatomistas..., somadas a seu repertório de game design acabaram incentivando-o a criar sua própria versão do jogo. Um ~mod~ por assim dizer.

Em Ciência da Morte, os jogadores encarnam investigadores forenses diante dos restos mortais da vítima de um crime hediondo - e devem determinar a causa da morte e debater sobre as condições nas quais o corpo foi encontrado.

Ciência da morte pode ser baixado aqui.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Jogos para o Projeto Mwarusi - Apenas um Jogo

Conheci João Pedro Torres no Laboratório de Jogos 2013. Já naquele ano, ele jogou conosco, pelo menos, o larp Boa Noite Queridinhas - e acredito que também Ouça no Volume Máximo. Na edição 2014 do evento, esteve conosco em Álcool, do Luiz Prado, e no Morte Branca, na primeira aplicação realizada pelo Boi Voador.

Em 2017, João foi selecionado pela Girl Move Foundation - ONG com o objetivo de combater a pobreza por meio da educação das mulheres - como designer de jogos para atuar no Projeto Mwarusi. Segundo ele, a experiência de jogar Morte Branca teve papel fundamental na seleção - perguntaram a ele qual foi sua experiência de jogo mais transformadora e significativa.

Em Moçambique, passou 40 dias trabalhando com uma equipe em um programa educativo destinado às meninas da região, as mwarusi, para lidar com questões relativas a sexualidade, abandono dos estudos e identidade - e claro, muitas questões relacionadas aos problemas e às habilidades a serem desenvolvidas, conforme detectados em relatório desenvolvido pela ONG em 2016.

Sobre essa meta, Torres não garantiu que o jogo iria desenvolver as habilidades pretendidas, mas poderia criar um espaço seguro para esse desenvolvimento. Para ele "educação não é mais transmitir conhecimento, mas explorar temas junto dos educandos".

Essa foi a primeira experiência do autor trabalhado diretamente com a criação de larps e live games, e ainda por cima em um projeto educativo. Ele conta que deve que lidar com as vicissitudes da equipe, incluindo interesses flutuantes dos líderes, redirecionamento de projetos no meio do caminho e demandas inusitadas: quadrinhos, jogos de lutas, teatro do oprimido... Mas estes detalhes nós vamos deixar para descobrir no encontro, certo?

E jogar os jogos, é claro!


SET/ Jogos para o Projeto Mwarusi 
dia 24 de setembro, domingo - 14h00 / Sala de Convenções Pequena

O Apenas um Jogo de setembro recebe o arquiteto e game-designer João Pedro Torres. No encontro, ele contará sobre sua experiência em Moçambique desenvolvendo jogos para a ONG Girl Move, num trabalho de conscientização e sensibilização com meninas em idade escolar - tendo em vista a grande evasão escolar e a situação de vulnerabilidade social desse grupo na região - além, é claro, de realizar alguns desses jogos com os participantes.

Aberto para todos os públicos.

link: evento no site do Sesc
link: evento no facebook

um dos vídeos do projeto sobre o larp Namorado (Problema do Namorado/ Um Namorado para Mwarusi). 

João Pedro Torres é arquiteto e game designer, atuando na intersecção entre RPGs, larps, card games e jogos de tabuleiro. Autor de Massa Crítica (finalista no Concurso Faça Você Mesmo, da Secular Games, em 2013), O Jogo de Cartas do Amor (vencedor da edição brasileira do Game Chef em 2014) e Sertão Bravio. Em 2017 trabalhou com a equipe da ONG Girl Move, em Moçambique, na elaboração dos jogos que constituem o programa do projeto Mwarusi (vencedor do Dreams Innovation Challenge, financiado pelo U.S. President’s Emergency Plan for AIDS Relief).



O Apenas um Jogo de setembro no Sesc Itaquera ainda se relaciona com outra programação desse mês na unidade, o Florescer nas Margens - que busca dar visibilidade e, por consequência, valorizar aquilo que está à margem: pessoas e grupos que nela vivem, movimentos que dela florescem e iniciativas e ideias inspiradoras que dela surgem.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

MORTE BRANCA: A METÁFORA DA VIDA – Notas sobre uma experiência sensível

Em agosto, realizei na programação Apenas um Jogo do Sesc Itaquera o larp Morte Branca. Paloma Neves, uma das jogadoras, escreveu-me um relato a respeito e permitiu que eu o publicasse. Segue na íntegra. E na sequência, links para outros relatos da experiência, escritos por outros participantes.


Guest Post - Paloma Neves


No dia 27 de agosto de 2017, estivemos reunidos no  Espaço de Tecnologias e Artes do SESC Itaquera, para realizar o Larp “Morte Branca” de Nina Runa Essendrop [e Simon Steen Hansen].  

O jogo em questão estabelece dois momentos: workshop e aplicação (que é a rodada propriamente dita). Seres Humanos:  uma sociedade “ancestral” (primeiros colonos), vivem no topo de uma montanha, este é o território ocupado, sob a neve e o frio intenso. Criaturas Brancas: seres celestiais que ocupam outra dimensão, anjos da neve, coexistem com os humanos, mas não podem relacionar-se com eles. É proibida a fala em ambos os universos. 

Seres humanos e criaturas brancas não se articulam através das palavras, a estrutura rígida de “Morte Branca” estabelece uma experiência corporal, onde toda a expressão e os meios de construção da narrativa, entre os jogadores, se dão na chave da linguagem não verbal.

As regras do jogo impõem restrições físicas rígidas e intensas aos corpos dos jogadores: “ímãs com polos opostos entre pés e mãos”, “pés e mãos atados, uns aos outros, com elásticos”...  Os seres humanos, assim como na vida real, são plenos de limitações que os impedem de sentir prazer nas pequenas coisas, limitações que geram frustrações e insatisfações consigo mesmo, limitações que implicam na necessidade de auto-proteção, mas que resultam em hostilidade no trato com as outras pessoas.  

Além dos limites físicos, o jogo fornece a cada ser humano um conflito comportamental: “pessoas com a cor da pele diferente da sua não são confiáveis”, “pessoas com cabelo curto são mais fracas”, “pessoas com cor de cabelo diferente da sua são inferiores”... Nada de incomum, se pensarmos nas relações humanas, na história da "evolução" humana, na sociologia. Todas essas condições comportamentais são gatilhos potentes, criam animosidade, desconfianças e instauram uma atmosfera densa de sentimentos mesquinhos.

As criaturas brancas são o oposto dos seres humanos: são leves, são amorosas, são felizes e tentam salvar os Seres Humanos de seus sofrimentos, de suas redomas de vidro. Como não ocupam o mesmo espaço físico que os seres humanos e a estrutura do jogo exige a ausência da linguagem verbal, criaturas brancas tem poder nulo de intervenção sobre os conflitos humanos.

Há ainda a presença de quatro elementos plenos em simbolismo: SONHO (balões de ar), SOBREVIVÊNCIA (açúcar), FÉ (folhas de papel em branco) e, algo que nomearei como “TRANSCENDÊNCIA” (fita de cetim). Estes elementos eram inseridos no jogo, pouco a pouco, em momentos rigorosamente estabelecidos no roteiro de ação do Larp. As relações que os jogadores, enquanto Seres Humanos, estabeleciam com estes quatro elementos intensificavam, ainda mais, o conflitos com os outros Seres Humanos.

Assim como na vida real, sonho trazia leveza e alegria, apesar de seu caráter efêmero. Sobrevivência, simbolizada por um alimento, que também funcionava como riqueza, como moeda de troca e meio de opressão e dominação: assim como na vida real, a luta por sobrevivência faz despertar tudo aquilo que é instinto, na forma mais bruta. , tal qual na vida real, para quem acredita é motivadora e para quem não acredita, gera total apatia e desprezo contra quem tem fé. E a transcendência que, com o pesar mais niilista do mundo, ouso chamar de suicídio: decisão irreversível, capaz de por fim na extrema exaustão que é encarar, infinitas vezes, o sofrimento de permanecer vivo.

Mergulhei na experiência proposta em Morte Branca com total intensidade. Ter usado um repertório de ferramentas do ofício do ator, que há muito deixei para trás, construindo meu personagem Ser Humano com um norte de método stanislavskiano, talvez não tenha sido a melhor das ideias. Minhas restrições impostas pelo jogo eram um corpo-marionete, cuja movimentação deveria partir de linhas guias nos joelho, punhos e cotovelos... Além de ter como "quesito moralizante" a condição de que pessoas com cor da pele diferente da minha não eram confiáveis.

O acaso me trouxe exatamente meus conflitos existenciais, que carrego comigo em minha vida real: corpo marionete (sinto, muitas vezes que sou uma pessoa totalmente manipulável, frágil, como alguém que não conduz a própria vida, mas que é conduzido, que está sob o julgo de outrem) e, para estreitar laços com a minha realidade: eu era a única menina quase negra, numa sala repleta de gente branca; "pessoas de pele com cor diferente da sua não são confiáveis" automaticamente se transformou em "não se pode confiar em absolutamente ninguém".

Construir uma vivência mais semelhante à minha própria relação com a vida do que esta, seria impossível. Somando a tudo isto o empréstimo de meu próprio repertório emocional, aos quatro elementos: para SONHOS empreguei meu sonho real; à SOBREVIVÊNCIA, minha generosidade em doar e receber, mesmo em condição de escassez, lutando e empregando toda a minha força, de maneira obstinada, a garantir que todos tivessem acesso livre ao mínimo para manterem-se vivos; à FÉ, uma total insegurança, fruto de minha relação íntima com o verbo acreditar, em contraponto ao misto de curiosidade e admiração por quem é capaz de manter a esperança; e à TRANSCENDÊNCIA: meu último suspiro, debilitado, exausto pela longa trajetória, num desabrochar reconfortante da desistência, que resulta em solene liberdade.

A experiência compartilhada no acontecimento do jogo serviu-me como um espaço para redescobrir a mim mesma. Como um lampejo e uma chance de pensar em mim e na minha relação com o mundo, num plano onírico, onde o lúdico se desdobra em potencialidade de raciocínio diante do real.

"Morte Branca" é um Larp que questiona a vida, as limitações humanas, os conflitos consigo e com o meio... É sobre esgotamento, sobre a existência, sobre a vida em sociedade. É um olhar reflexivo sobre o homem e seu meio.